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sábado, 10 de maio de 2008
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Ensinar arquitectura,Aprender arquitectura - 1996
Pessoas jovens chegam à universidade, querem ser arquitectos ou arquitectas, querem descobrir se têm as capacidades necessárias.
O que se lhes transmite primeiro?Desde logo deve-se explicar que perante eles não têm nenhum professor que faz perguntas cuja resposta já sabe de antemão. Fazer arquitectura significa colocar questões a si próprio, significa aproximar-se, cercar, encontrar a própria resposta com o apoio do professor.
Vezes sem conta.
A força de um bom projecto encontra-se em nós e na capacidade de percebermos o mundo racional emotivamente. Um bom projecto arquitectónico é sensual. Um bom projecto arquitectónico é inteligente.
Todos nós vivemos a arquitectura, mesmo antes de conhecermos a palavra arquitectura e os estudantes devem aprender a trabalhar de forma consciente as suas experiências pessoais como base dos seus projectos.
A arquitectura é sempre uma matéria concreta. A arquitectura não é abstracta, mas sim real. Um esboço, um projecto, desenhado em papel, não é arquitectura, mas apenas uma representação mais ou menos imperfeita de arquitectura, comparável às notas da música. A música necessita da apresentação. A arquitectura precisa da execução. Então forma-se o corpo. E este é sempre sensual.
Pensar em imagens de forma associativa, selvagem, livre, ordenada e sistemática, em imagens arquitectónicas, espaciais, coloridas e sensuais – isto é a minha definição preferida do projectar. O pensar em imagens como método de projectar é o que gostava de transmitir aos estudantes.
Excerto de "Pensar a Arquitectura", de Peter Zumthor
segunda-feira, 7 de abril de 2008
O núcleo duro da beleza - 1991
Os meus colegas suíços Herzog & De Meuron dizem que nos nossos dias a arquitectura como um todo já não existe e, consequentemente deveria ser construída de forma artificial, por assim dizer na cabeça do criador.
Não quero prosseguir esta teoria da arquitectura como forma de pensamento destes arquitectos, mas sim da intuição subjacente à suposição de que já não existe a totalidade de uma obra no sentido tradicional da construção.
Eu ainda acredito na totalidade corporal auto-suficiente do objecto arquitectónico, se bem que não como um facto evidente, mas sim como um objectivo difícil embora indispensável ao meu trabalho.
Mas como é possível conseguir esta totalidade na arquitectura, num tempo em que um sentido divino falta e a realidade ameaça dissolver-se no devir das imagens e sinais?
Uma boa arquitectura deve hospedar o Homem, deixá-lo presenciar e habitar, e não tentar persuadir.
Interrogo-me muitas vezes porquê se tenta tão pouco o evidente, o difícil? Porque é que os jovens arquitectos demonstram tão pouca confiança nas coisas mais intrínsecas que constituem a arquitectura: o material, a construção, o carregar e ser carregado, a terra e o céu – a confiança nos espaços aos quais se permite serem verdadeiros espaços; espaços nos quais se cuida do invólucro, do material que o distingue, da concavidade, do vazio, da luz, ar, cheiro, da capacidade de absorção e ressonância?
Onde encontro a realidade à qual devo dirigir a minha imaginação, quando tento projectar um edifício para um determinado lugar e para um determinado objectivo?
Uma chave para a resposta a esta pergunta encontra-se nas palavras lugar e objectivo. Nós nunca nos encontramos num espaço abstracto, mas sempre num mundo real, mesmo quando pensamos. Heidegger diz-nos que: “A relação do homem para como os lugares e através dos lugares para com os espaços baseia-se no habitar”.
A realidade que me interessa e para a qual quero dirigir a minha imaginação, não é a realidade das teorias descoladas das coisas, mas sim essa outra que aponta para este Habitar; a da tarefa arquitectónica concreta. É a realidade dos materiais – pedra, tecido, aço, cabedal... – e a realidade das construções que utilizo para edificar, em cujas características tento penetrar com a minha imaginação, empenhado em encontrar sentido e sensualidade, para que possa, talvez, acender a faísca de uma obra bem sucedida, capaz de dar uma obra bem sucedida aos homens. A realidade da arquitectura é o concreto, o que se tornou forma, massa e espaço, o seu corpo. Não existe nenhuma ideia, excepto nas coisas.
Excerto de "Pensar a Arquitectura", de Peter Zumthor
Não quero prosseguir esta teoria da arquitectura como forma de pensamento destes arquitectos, mas sim da intuição subjacente à suposição de que já não existe a totalidade de uma obra no sentido tradicional da construção.
Eu ainda acredito na totalidade corporal auto-suficiente do objecto arquitectónico, se bem que não como um facto evidente, mas sim como um objectivo difícil embora indispensável ao meu trabalho.
Mas como é possível conseguir esta totalidade na arquitectura, num tempo em que um sentido divino falta e a realidade ameaça dissolver-se no devir das imagens e sinais?
Uma boa arquitectura deve hospedar o Homem, deixá-lo presenciar e habitar, e não tentar persuadir.
Interrogo-me muitas vezes porquê se tenta tão pouco o evidente, o difícil? Porque é que os jovens arquitectos demonstram tão pouca confiança nas coisas mais intrínsecas que constituem a arquitectura: o material, a construção, o carregar e ser carregado, a terra e o céu – a confiança nos espaços aos quais se permite serem verdadeiros espaços; espaços nos quais se cuida do invólucro, do material que o distingue, da concavidade, do vazio, da luz, ar, cheiro, da capacidade de absorção e ressonância?
Onde encontro a realidade à qual devo dirigir a minha imaginação, quando tento projectar um edifício para um determinado lugar e para um determinado objectivo?
Uma chave para a resposta a esta pergunta encontra-se nas palavras lugar e objectivo. Nós nunca nos encontramos num espaço abstracto, mas sempre num mundo real, mesmo quando pensamos. Heidegger diz-nos que: “A relação do homem para como os lugares e através dos lugares para com os espaços baseia-se no habitar”.
A realidade que me interessa e para a qual quero dirigir a minha imaginação, não é a realidade das teorias descoladas das coisas, mas sim essa outra que aponta para este Habitar; a da tarefa arquitectónica concreta. É a realidade dos materiais – pedra, tecido, aço, cabedal... – e a realidade das construções que utilizo para edificar, em cujas características tento penetrar com a minha imaginação, empenhado em encontrar sentido e sensualidade, para que possa, talvez, acender a faísca de uma obra bem sucedida, capaz de dar uma obra bem sucedida aos homens. A realidade da arquitectura é o concreto, o que se tornou forma, massa e espaço, o seu corpo. Não existe nenhuma ideia, excepto nas coisas.
Excerto de "Pensar a Arquitectura", de Peter Zumthor
sexta-feira, 21 de março de 2008
À procura da arquitectura perdida
Quando penso na arquitectura, ocorrem-me imagens, que estão relacionadas com a minha formação e trabalho como arquitecto. Outras imagens têm a ver com a minha infância, em que vivia a arquitectura sem pensar sobre isso. Ainda consigo sentir na minha mão a maçaneta da porta, esta peça de metal moldada como as costas de uma colher. Tocava nela quando entrava no jardim da tia e ainda hoje me parece um sinal especial de entrada num mundo de ambientes e cheiros diversos. Recordo o barulho do seixo sob os meus pés, o brilho suave da madeira de carvalho encerado nas escadas, oiço a porta de entrada pesada cair no trinco, corro ao longo do corredor sombrio e entro na cozinha, o único lugar realmente iluminado da casa.
Apenas esta sala, assim me parece hoje, tinha um tecto que não desaparecia na penumbra; e as pequenas peças hexagonais do chão, de encarnado escuro e com juntas bem preenchidas, opõem-se aos meus passos com uma dureza implacável. Do armário de cozinha irradia este estranho cheiro de tinta de óleo. Tudo nesta cozinha era como nas cozinhas tradicionais costumava ser. Não havia nada de especial nela. Mas talvez esteja tão presente na minha memória como síntese de uma cozinha precisamente por ser de uma forma quase natural apenas cozinha.
Quando estou a projectar, encontro-me frequentemente imerso em memórias antigas e meio esquecidas, e questiono-me: qual foi precisamente a natureza desta situação arquitectónica, o que significava na altura para mim e ao que é que poderei recorrer para ressuscitar esta atmosfera rica que parece saturada da presença natural das coisas, onde tudo tem o seu lugar e toma a sua forma certa?
Excerto de "Pensar a arquitectura", de Peter Zumthor
Apenas esta sala, assim me parece hoje, tinha um tecto que não desaparecia na penumbra; e as pequenas peças hexagonais do chão, de encarnado escuro e com juntas bem preenchidas, opõem-se aos meus passos com uma dureza implacável. Do armário de cozinha irradia este estranho cheiro de tinta de óleo. Tudo nesta cozinha era como nas cozinhas tradicionais costumava ser. Não havia nada de especial nela. Mas talvez esteja tão presente na minha memória como síntese de uma cozinha precisamente por ser de uma forma quase natural apenas cozinha.
Quando estou a projectar, encontro-me frequentemente imerso em memórias antigas e meio esquecidas, e questiono-me: qual foi precisamente a natureza desta situação arquitectónica, o que significava na altura para mim e ao que é que poderei recorrer para ressuscitar esta atmosfera rica que parece saturada da presença natural das coisas, onde tudo tem o seu lugar e toma a sua forma certa?
Excerto de "Pensar a arquitectura", de Peter Zumthor
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